25 de mar de 2010

UM NOVO CONHECIMENTO. UM NOVO SONHO A REALIZAR.

 A cada segundo um novo desafio nos aparece. Eu como uma amante de desafios.
Não deixei por menos quando vi no planfeto da faculdade, PÓS EM LIBRAS. Me inscrevi e estou amando tudo desde a turma, aos mestres, aos segredos e desafios que estão vindo e surgindo a nossa frente.
Prometo doar o máximo e mim por este aprendizado. Pois temos que pensar no nosso próximo e não somente em nós. Temos que passar a diante nossos conhecimentos, por mais que eles sejam sem utilidade a nós.
Não é porque eu ouço, falo posso ter facilidade para estudar, por não possuir uma deficiencia auditiva, que irei cruzar os braços e não aprender a Linguagem Brasileira de sinais, é um grande desafio, mas não tão grande que seja imposível superá-lo e daqui uns anos poder está diant  de um Surdo e poder me comunicar com ele  de iguai para igual.
LUCINDA FERREIRA BRITO
Doutora em Lingüística
Departamento de Lingüística e Filologia
da Universidade Federal do Rio de Janeiro

As línguas de sinais são línguas naturais porque como as línguas orais sugiram espontaneamente da interação entre pessoas e porque devido à sua estrutura permitem a expressão de qualquer conceito - descritivo, emotivo, racional, literal, metafórico, concreto, abstrato - enfim, permitem a expressão de qualquer significado decorrente da necessidade comunicativa e expressiva do ser humano.

Por isso, são complexas porque dotadas de todos os mecanismos necessários aos objetivos mencionados, porém, econômicas e “lógicas” porque servem para atingir todos esses objetivos de forma rápida e eficiente e até certo ponto de forma automática. Isto porque, tratando-se muitas vezes de significados que demandam operações complexas que devem ser transmitidas prontamente diante de diferentes situações e contextos, seus usuários terão que se utilizar dos mecanismos estruturais que elas oferecem de forma apropriada sem ter que pensar e elaborar longamente sobre como atingir seus objetivos linguísticos.

As línguas de sinais distinguem-se das línguas orais porque utilizam-se de um meio ou canal visual-espacial e não oral auditivo. Assim, articulam-se espacialmente e são percebidas visualmente, ou seja, usam o espaço e as dimensões que ele oferece na constituição de seus mecanismos “fonológicos”, morfológicos, sintáticos e semânticos para veicular significados, os quais são percebidos pelos seus usuários através das mesmas dimensões espaciais. Daí o fato de muitas vezes apresentarem formas icônicas, isto é, formas linguísticas que tentam copiar o referente real em suas características visuais. Esta iconicidade mais evidentes nas estruturas das línguas de sinais do que nas orais deve-se a este fato e ao fato de que o espaço parece ser mais concreto e palpável do que o tempo, dimensão utilizada pelas línguas orais-auditivas quando constituem suas estruturas através de seqüências sonoras que basicamente se transmitem temporalmente.

Entretanto, as formas icônicas das línguas de sinais não são universais ou o retrato fiel da realidade. Cada língua de sinais representa seus refentes, ainda que de forma icônica, convencionalmente porque cada uma vê os objetos, seres e eventos representados em seus sinais ou palavras sob uma determinada ótica ou perspectiva. Por exemplo, o sinal ÁRVORE em LIBRAS representa o tronco da árvore através do antebraço e os galhos e as folhas através da mão aberta e do movimento interno dos seus dedos. Porém, o sinal para o mesmo conceito em CSL (língua de sinais chinesa) representa apenas o tronco com as duas mãos semiabertas e os dedos dobrados de forma circular. Em LIBRAS, o sinal CARRO/DIRIGIR é icônico porque representa o ato de dirigir, porém, é também convencional porque em outras línguas de sinais não toma necessariamente este aspecto dos referentes ‘carro’ e ‘ato de dirigir’ como motivação de sua forma mas sim outros. Vejamos o sinal:

Este carater convencional dos sinais icônicos atribui a ele um status linguístico posto que é conhecido o fato de que as palavras das línguas em geral são arbitrárias. Com isso queremos dizer que ao invés de rotular todos os chamados signos lingüísticos de arbitrários, seria melhor considerar que alguns são motivados ou icônicos, porém, todos são convencionais.
Esta proposta não toma como base apenas as línguas de sinais mas também as línguas orais. Estas têm sido estudadas nos últimos anos em seus aspectos também icônicos. No intuito de tornar alguns conceitos e descrição de eventos mais visíveis, palpáveis e concretos, as línguas orais usam noções espaciais para traduzí-las. Por exemplo, alguns conceitos temporais são espacializados (uma semana atrás, “week ahead”(uma semana à frente)). Alguns eventos são estruturados cronologicamente ou de forma a reproduzir a sua natureza contínua ou iterativa (“ele saiu correndo, tropeçou no balde e caiu” ao invés de “ele caiu porque tropeçou no balde quando saiu correndo”; e “ele correu, correu, correu até não agüentar mais”). Cada vez mais alguns lingüístas têm salientado estruturas icônicas ou motivadas nas línguas orais o que mostra que esta característica não se encontra presente apenas nas línguas de sinais e que, portanto, melhor seria preconizar a convencionalidade como propriedade universal dos “signos” ou formas lingüísticas em detrimento da arbitrariedade.
Com o que dissemos até aqui, podemos concluir que o meio ou canal que distingue as línguas orais das línguas de sinais pode privilegiar e explorar características próprias do canal na constituição das estruturas lingüísticas e na sua articulação e percepção. Podem mesmo impor restrições aos mecanismos gramaticais como demonstraremos no decorrer deste texto. Entretanto, essas duas modalidades de língua apresentam de forma, às vezes, distinta estruturas geradas a partir de princípios universais e, portanto, comuns. Basicamente, línguas de sinais e línguas orais são muito semelhantes. As gramáticas particulares das línguas orais e das línguas de sinais são intrinsecamente as mesmas posto que seus princípios básicos são respeitados em ambas as modalidades: elas são dotadas de dupla articulação (estruturam-se a partir de unidades mínimas distintivas e de morfemas ou unidades mínimas de significado), usam a produtividade como meio de estruturar novas formas a partir de outras já existentes, estruturam suas sentenças a partir dos mesmos tipos de constituintes e categorias lingüísticas, suas sentenças são estruturadas sempre em torno de um núcleo com valência, isto é, o núcleo que requer os argumentos (complementos) necessários para a completude do significado que veicula. Todas essas colocações serão discutidas a seguir através da descrição de aspectos estruturais da LIBRAS, os quais serão comparados, sempre que possível, com os equivalentes em Língua Portuguesa, no intuito de salientar as diferenças e as semelhanças entre as duas línguas.
No entanto, antes de passarmos à descrição propriamente dita da LIBRAS, é bom enfatizar que como todas as línguas ela é natural, isto é, ela é por definição natural. Assim, não é adequado dizer que a LIBRAS é a língua natural dos surdos brasileiros. Não, ela é natural devido à sua própria natureza o que a opõe a sistemas artificiais como o Esperanto, o Gestuno (sistema de sinais semelhante a um “pidgin” utilizado por surdos de vários países em sua interação em eventos e encontros internacionais), os diferentes códigos de comunicação (de trânsito, das abelhas, dos golfinhos, etc.) e as diferentes linguas orais sinalizadas (português sinalizado, inglês sinalizado,...). Dessa forma, considera-se que a LIBRAS é ou deve ser a língua materna dos surdos não porque é a língua natural dos surdos mas sim porque, tendo os surdos bloqueios para a aquisição espontânea de qualquer língua natural oral, eles sim é que só vão ter acesso a uma língua materna que não seja veiculada através do canal oral-auditivo. Esta língua poderia ser uma língua cujo canal seria o tato. Porém, como a alternativa existente às línguas orais são as línguas de sinais estas se prestam às suas necessidades. As línguas de sinais são, pois, tão naturais quanto as orais para todos nós e, para os surdos, elas são mais acessíveis devido ao bloqueio oral-auditivo que apresentam, porém, não são mais fáceis nem menos complexas. Os surdos são pessoas e, como tal, são dotados de linguagem assim como todos nós. Precisam apenas de uma modalidade de língua que possam perceber e articular facilmente para ativar seu potencial lingüístico e, consequentemente, os outros e para que possam atuar na sociedade como cidadãos normais. Eles possuem o potencial. Falta-lhes o meio. E a Língua Brasileira de Sinais é o principal meio que se lhes apresenta para “deslanchar” esse processo.
As línguas de sinais são sistemas abstratos de regras gramaticais, naturais às comunidades surdas dos países que as utilizam. Assim como as línguas faladas, as línguas de sinais não são universais: cada país apresenta a sua própria língua. No caso do Brasil, como já foi citado, tem-se a LIBRAS e, além dessa, tem-se também a língua de sinais usada por uma tribo indígena brasileira chamada Urubu Kaapor, citada por Kakumasu (1968) e Ferreira Brito (1993).
As línguas de sinais apresentam-se numa modalidade diferente das línguas orais-auditivas; são línguas espaço-visuais, ou seja, a realização dessas línguas não é estabelecida através do canal oral-auditivo, mas através da visão e da utilização do espaço. A diferença na modalidade determina o uso de mecanismos sintáticos específicos diferentes dos utilizados nas línguas orais. As línguas de sinais são sistemas lingüísticos independentes dos sistemas das línguas orais e não são universais.
As línguas de sinais, dentre elas a LIBRAS, parecem apresentar especial interesse nas pesquisas lingüísticas dentro da perspectiva gerativista. A razão de tal interesse está relacionada à possibilidade de determinar os princípios da UG independentemente da modalidade da língua. Se isso for possível, as línguas de sinais podem ser exemplos de línguas que fortalecem a proposta gerativista quanto à existência de um módulo da linguagem na mente/cérebro do ser humano.

Quanto aos aspectos estruturais das línguas de sinais, há dois aspectos fundamentais: (a) o estabelecimento nominal e a pronominalização e (b) a concordância verbal. Os sujeitos e objetos podem ser estabelecidos em um ponto no espaço de sinalização (loc)3 ; quando isso ocorre, há um estabelecimento nominal e a pronominalização. Esse estabelecimento é completamente espacial e é fundamental para a concordância verbal, principalmente com referentes não presentes.
Considerando que o processo de aquisição das línguas de sinais é análogo ao processo de aquisição das línguas faladas, as seções seguintes estão subdivididas nos estágios de aquisição adotados nos estudos sobre a aquisição da linguagem. O estabelecimento nominal, o sistema pronominal e a concordância verbal serão enfatizados tendo em vista que tais tópicos são fundamentais para o estabelecimento de relações gramaticais (espaciais).

Para maiores informações..

http://www.ines.gov.br/ines_livros/36/36_PRINCIPAL.HTM